Nobel de Química 2026: quem são os cientistas que desvendaram o mistério das moléculas-espelho

Nobel de Química 2026: quem são os cientistas que desvendaram o mistério das moléculas-espelho

  • 8 de outubro de 2026
  • Mundo
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O francês Henri B. Kagan, de 95 anos, e o japonês Kenso Soai, de 76, receberam nesta quarta-feira (7) o Nobel de Química de 2026, concedido pela Academia Real Sueca de Ciências, em Estocolmo. Os dois foram reconhecidos pela descoberta de efeitos não lineares e da autocatálise na síntese orgânica assimétrica.

Estes trabalhos que ajudaram a solucionar um antigo mistério da química: por que moléculas que podem existir em duas formas espelhadas aparecem na natureza, muitas vezes, em apenas uma delas.

A questão pode ser entendida pela comparação com as mãos. Uma mão esquerda e uma mão direita são imagens espelhadas, mas não podem ser sobrepostas perfeitamente. Algumas moléculas apresentam a mesma característica e possuem duas versões, chamadas “enantiômeros”. Embora tenham estruturas muito parecidas, as duas formas podem interagir de maneira diferente com outras moléculas.

Isso é especialmente importante nos organismos vivos e na produção de medicamentos. Os aminoácidos que formam as proteínas, por exemplo, existem em duas versões espelhadas, mas a vida utiliza predominantemente uma delas. Na indústria farmacêutica, controlar qual das duas formas será produzida pode ser fundamental, já que versões diferentes de uma mesma molécula podem ter efeitos biológicos distintos.

Foi justamente esse problema que Kagan e Soai ajudaram a desvendar. Em 1986, Kagan demonstrou que pequenas diferenças entre as formas espelhadas de determinados catalisadores poderiam ser amplificadas durante uma reação química, fenômeno conhecido como efeito não linear. O trabalho mostrou que era possível favorecer a formação de uma das versões moleculares.

Anos depois, Soai avançou nessa linha ao desenvolver uma reação em que o próprio produto poderia atuar como catalisador e estimular a produção de mais moléculas com a mesma orientação. Esse processo é chamado de autocatálise.

Em 2003, ele conseguiu uma reação na qual apenas uma das duas formas espelhadas era produzida, um resultado que, até então, só havia sido observado na química da vida.

As descobertas deram aos químicos uma maneira mais precisa de controlar a chamada quiralidade molecular, propriedade relacionada à existência dessas formas em espelho. O conhecimento é importante para a síntese de medicamentos e outros compostos utilizados pela indústria química.

Kenso Soai

Kenso Soai nasceu em Hiroshima, no Japão, em 1950. Formou-se em Química pela Universidade de Tóquio, onde também concluiu seu doutorado em síntese orgânica, em 1979. No mesmo ano, iniciou uma temporada de pesquisa de pós-doutorado na Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos.

De volta ao Japão, Soai construiu sua carreira na Tokyo University of Science, onde se tornou professor e hoje é professor emérito. Seu trabalho com autocatálise se tornou conhecido mundialmente e deu origem à chamada reação de Soai, uma das demonstrações mais importantes de como uma pequena diferença entre moléculas espelhadas pode ser amplificada por uma reação química.

A notícia do Nobel, no entanto, chegou de maneira bastante cotidiana. Soai estava fazendo compras em um supermercado perto de casa quando recebeu a ligação informando que havia sido escolhido para o prêmio. Durante a entrevista após o anúncio, ele contou que estava no mercado e classificou a notícia como um dos dias mais emocionantes de sua vida.

Henri Kagan

Nascido em 1930, em Boulogne-Billancourt, na França, Henri Kagan é um dos pioneiros da química orgânica assimétrica. Formou-se em Ciências Físicas e Químicas na Sorbonne e obteve seu doutorado no Collège de France, em 1960.

Kagan construiu a maior parte de sua carreira acadêmica na então Université Paris-Sud, onde foi professor e criou seu laboratório de pesquisa. Hoje é professor emérito da instituição, atualmente integrada à Universidade Paris-Saclay. Ele também é membro da Academia de Ciências da França desde 1991.

Aos 95 anos, Kagan é o segundo cientista mais velho a receber um Nobel de Química, atrás apenas de John Goodenough, que tinha 97 anos quando foi premiado em 2019. Curiosamente, Kagan já havia sido reconhecido internacionalmente em 2001 com o Prêmio Wolf de Química, mas ficou de fora do Nobel daquele ano, concedido a William Knowles, Ryoji Noyori e Barry Sharpless por trabalhos relacionados à catálise assimétrica.

 

Confira também os ganhadores do Nobel de Medicina, Literatura e Física.

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Redação The Brazilian Journal
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