Guerra dos Boxers: a revolta camponesa que enfrentou o imperialismo e expôs as contradições da velha China

Guerra dos Boxers: a revolta camponesa que enfrentou o imperialismo e expôs as contradições da velha China

  • 6 de outubro de 2026
  • Mundo
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Entre 1899 e 1901, uma grande revolta popular atravessou o norte da China e colocou camponeses, artesãos e trabalhadores pobres em confronto com algumas das maiores potências militares do mundo. Conhecido no Ocidente como Guerra dos Boxers, a organização recebeu na China o nome de Movimento Yihetuan (义和团运动).

O episódio ocupa um lugar importante na longa resistência chinesa ao imperialismo. A  Guerra dos Boxers foi um movimento anti-imperialista e patriótico, nascido entre as camadas populares diante da expansão das potências estrangeiras sobre o país.

Essa combinação é fundamental para entender o episódio.

Uma China pressionada pelas potências estrangeiras

No final do século XIX, a China da dinastia Qing estava submetida a uma crescente pressão econômica, militar e política das potências estrangeiras.

As Guerras do Ópio haviam imposto tratados desiguais que ampliaram o acesso estrangeiro ao mercado chinês. Depois da derrota para o Japão em 1895, a situação se agravou. Rússia, Reino Unido, França, Alemanha e Japão disputavam ferrovias, portos, concessões territoriais, áreas de influência e privilégios comerciais.

A presença estrangeira também estava associada às missões cristãs. Missionários e convertidos chineses passaram a ocupar uma posição juridicamente diferenciada em diversas regiões em consequência dos tratados firmados entre a China e as potências. Documentos diplomáticos norte-americanos da época registram que conflitos entre comunidades cristãs chinesas, missionários e populações locais já eram recorrentes antes da explosão da revolta.

Para a população rural, portanto, a presença estrangeira não aparecia simplesmente como uma questão diplomática. Ela estava ligada a transformações econômicas, disputas locais, perda de renda, presença de missionários e à percepção de que o Estado Qing era incapaz de defender a população diante das potências.

É nesse ambiente que surgiram e se expandiram as organizações que dariam origem à Guerra dos Boxers.

Camponeses, artesãos e pobres urbanos

Um boxer chinês na Guerra dos Boxers

Os Boxers não formavam um exército regular nem um partido político moderno. Eram uma ampla rede de sociedades populares, inicialmente conhecidas como Yihequan, com forte presença de camponeses e pequenos produtores.

O nome “Boxers” vem do inglês Boxers, usado pelos estrangeiros para se referir aos integrantes do movimento. Yihequan significa

  • 义 (yì) = justiça/retidão
  • 和 (hé) = harmonia
  • 拳 (quán) = punho

Ou seja, Yihequan pode ser traduzido aproximadamente como “Punhos da Justiça e da Harmonia”. O termo Boxers surgiu porque os membros do movimento praticavam artes marciais, exercícios físicos e técnicas tradicionais de combate.

Sua composição social era heterogênea, mas a base estava nas camadas populares rurais e nos pequenos artesãos. Práticas marciais, rituais religiosos e formas tradicionais de organização comunitária serviam para mobilizar milhares de pessoas. A partir de Shandong, os Boxers avançaram para outras áreas do norte da China. É aqui que a leitura de classe se torna importante.

A revolta não surgiu simplesmente porque chineses seriam “hostis ao Ocidente”, como frequentemente apareceu na propaganda colonial da época. Ela foi produzida por uma sociedade submetida simultaneamente à exploração interna e à pressão imperialista externa.

O próprio Vladimir Lenin, escrevendo em 1900, rejeitou a explicação segundo a qual os chineses estariam simplesmente em guerra contra a “civilização europeia”. Para ele, a questão deveria ser entendida a partir da ação dos governos e capitais estrangeiros que buscavam lucros, mercados e territórios na China.

Essa leitura posteriormente se tornou compatível com a interpretação marxista chinesa de que o problema da China moderna não poderia ser separado da combinação entre imperialismo estrangeiro e estruturas sociais internas.

“Apoiar os Qing, expulsar os estrangeiros”

Um dos slogans associados à Guerra dos Boxers foi “扶清灭洋” (Fú Qīng miè yáng), geralmente traduzido como “apoiar os Qing e expulsar os estrangeiros”.

A frase revela uma das principais contradições do movimento.

O movimento identificava corretamente a agressão estrangeira como um dos grandes problemas enfrentados pela sociedade chinesa. Porém, ao mesmo tempo, não identificava a própria dinastia Qing como parte estrutural da crise.

Isso permitiu que setores da elite imperial tentassem utilizar a mobilização popular em benefício próprio.

Inicialmente, a corte Qing reprimiu os Boxers. Depois, diante do crescimento da revolta e da pressão estrangeira, setores da corte passaram a tolerá-los e, posteriormente, a cooperar com eles. Documentos da época mostram que a própria administração imperial oscilou entre ordens para dissolver o movimento e medidas de apoio a suas forças.

Para a historiografia marxista chinesa, essa é uma das grandes limitações históricas do movimento: a massa camponesa lutava contra o imperialismo, mas não possuía uma compreensão suficientemente clara da relação entre a dominação estrangeira e a estrutura política e social interna.

A luta contra o imperialismo acabou, assim, sendo parcialmente subordinada aos interesses de setores da própria classe dominante Qing, que era subordinada ao capital estrangeiro.

Quando a revolta se transforma na Guerra dos Boxers

Em 1900, a situação explodiu.

Os Boxers passaram a atacar instalações e propriedades estrangeiras, missões cristãs e chineses convertidos ao cristianismo. Mas a resposta das potências estrangeiras foi muito além da proteção de seus cidadãos.

Reino Unido, Japão, Rússia, França, Estados Unidos, Alemanha, Itália e Áustria-Hungria organizaram uma força militar conjunta, posteriormente conhecida como Aliança das Oito Nações. Suas tropas avançaram em direção a Beijing.

A intervenção transformou a revolta numa guerra aberta entre a China e uma coalizão das principais potências imperialistas da época.

Em agosto de 1900, as forças estrangeiras entraram na cidade. A corte Qing abandonou a capital, enquanto as tropas estrangeiras ocuparam e saquearam partes da cidade.

A Rússia, em particular, utilizou a guerra dos Boxers como oportunidade para ampliar sua presença na Manchúria. Lenin denunciou justamente esse aspecto da intervenção: para ele, as potências não estavam simplesmente “restaurando a ordem”, mas aproveitando a crise para ampliar seus interesses econômicos e territoriais na China.

A violência colonial não terminou com a derrota dos Boxers

Em 1901, a dinastia Qing foi obrigada a assinar o Protocolo Boxer, conhecido na China como Tratado de Xinchou. A China teve de pagar enormes indenizações às potências estrangeiras, aceitar novas concessões e permitir a presença militar estrangeira em pontos estratégicos.

A cidade de Tianjin, porto próxima a Pequim, acabou dividida em 8 zonas de ocupação e administração estrangeira, vinculadas às concessões que diferentes potências já possuíam na cidade. As forças estrangeiras assumiram o controle de áreas estratégicas, enquanto a administração chinesa perdeu grande parte de sua autoridade.

E, apesar da derrota, o movimento Yihetuan foi uma das grandes manifestações da resistência popular ao imperialismo no período moderno. A revolta desferiu um golpe nas tentativas das potências de dividir a China e acelerou a crise da dinastia Qing. A resistência popular demonstrou que ocupar ou dividir a China não seria uma operação simples.

Lenin percebeu esse elemento ainda em 1900. Ao analisar a intervenção estrangeira, afirmou que a própria resistência chinesa revelava as dificuldades que as potências enfrentariam caso tentassem transformar o país em uma colônia convencional.

Por que os Boxers foram derrotados?

O movimento possuía enorme capacidade de mobilização popular, mas não tinha uma direção política unificada nem um programa capaz de reorganizar a sociedade. Sua base social era majoritariamente camponesa, e sua visão de mundo combinava resistência nacional, crenças tradicionais e formas de organização pré-modernas.

Por isso, a derrota não é interpretada apenas como resultado da superioridade militar das potências.

Ela também revela um problema político: a resistência popular não conseguiu transformar sua força social em um projeto revolucionário capaz de enfrentar simultaneamente o imperialismo e a velha estrutura de poder.

O slogan “apoiar os Qing e expulsar os estrangeiros” sintetiza essa contradição.

A massa popular enfrentava o imperialismo, mas preservava politicamente a estrutura que havia permitido à própria China chegar àquela situação.

Um marco na história revolucionária chinesa

A Guerra dos Boxers terminou em derrota, mas não desapareceu da memória política chinesa. Pelo contrário: ela integra uma sequência de revoltas e movimentos que expressaram a resistência da população chinesa à penetração imperialista, como a Rebelião Taiping,  e as posteriores Revolução Xinhai de 1911 e a Revolução Chinesa de 1949.

Isso não significa tratar os Boxers como uma organização comunista antes da existência do próprio PCCh. O Partido Comunista da China só seria fundado em 1921, duas décadas depois.

O significado atribuído à Guerra dos Boxers é histórico: ele demonstraria que as classes populares chinesas já haviam começado a reagir à ordem imperialista antes de existir uma força política capaz de organizar essa resistência sob uma direção revolucionária moderna.

A Guerra dos Boxers, portanto, pode ser lida como uma das grandes chagas abertas pelo imperialismo na China: um país submetido a pressões econômicas, militares e territoriais externas, uma população rural mergulhada em crise e uma velha classe dominante incapaz de romper com a ordem que a sustentava.

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Redação The Brazilian Journal
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