A aldeia de Xuanwo, em uma área montanhosa na província chinesa de Gansu, teve um importante papel na história da Longa Marcha, pois a aldeia fica entre o local da histórica Batalha de Lazikou, que rompeu o cerco militar imposto ao Exército Vermelho, e Hadapu, onde foi definido o destino final da marcha.
Servindo como um ponto de descanso temporário para o Exército Vermelho após uma marcha difícil na região fronteiriça entre Sichuan e Gansu e uma de suas mais difíceis e sangrentas batalhas, a aldeia ajudou a revigorar as forças dos soldados.
A noite de insônia de Mao Zedong em Xuanwo
Mao Zedong foi hospedado na casa da família de Han Qiming, um dos aldeões. A antiga residência era uma humilde casa rural no estilo típico do noroeste da China, com a frente voltada para o sul e uma área de aproximadamente 394 metros quadrados, paredes de taipa e portas de madeira.
Após o Exército Vermelho conquistar Lazikou, em 17 de setembro de 1936, os líderes, incluindo Mao Zedong, seguiram em frente, chegando à aldeia de Xuanwo naquela noite.
Na aldeia, as tropas finalmente tiveram algum descanso, mas os líderes ainda tinham várias questões urgentes para decidir, entre elas a definição do próximo deslocamento da marcha e uma estratégia de como lidar com a população local, especialmente a comunidade muçulmana, cujos valores e tradições precisavam ser respeitados. Por conta disso, aquela noite foi crucial para a virada estratégica da Longa Marcha em Gansu.
A aldeia de Xuanwo e a região do monte Minshan marcaram tão profundamente a memória da Longa Marcha que foram parar no famoso poema “A Longa Marcha”, de Mao Zedong.
A célebre frase “Mais me alegro com a neve milenar do Monte Minshan, os três exércitos se iluminam após passar” está diretamente relacionada a este local, expressando a alegria das tropas vermelhas ao terem sua esperança renovada após escalar o Monte Minshan.
O Código para as Regiões Muçulmanas e a Política Étnica
Xuanwo era uma aldeia mista das etnias Hui, de religião muçulmana, e Han. Lá, o Exército Vermelho elaborou o “Código para as Regiões Muçulmanas”, exigindo respeito às mesquitas e aos textos sagrados desta religião, proibindo o consumo de carne de porco nas áreas hui, garantindo a liberdade de crença e promovendo a igualdade étnica.
Mesquita vista da entrada da casa onde Mao Zedong pernoitou em Xuanwo
O Código reflete como o trabalho de massas do Exército Vermelho se traduzia em detalhes da vida cotidiana, e não em slogans abstratos.
O imã local, Ding Zhenbang, após compreender a disciplina e as propostas do Exército Vermelho, expressou apoio em nome da população local.
Mao Zedong aproveitou seu tempo em Xuanwo para conhecer em detalhes os costumes da etnia hui por meio de conversas com moradores. A construção dessa confiança mútua foi fundamental para que o Exército Vermelho avançasse na região, onde predominavam, cmo ainda predominam, a etnia hui e os costumes muçulmanos.
A casa transformada em museu
Ao visitar a casa onde Mao Zedong se hospedou em Xuanwo, três aspectos chamam a atenção, sendo o primeiro deles o espaço reduzido do pátio e a simplicidade do imóvel, que refletem as condições de vida difíceis daquela época.
O pátio da casa, hoje convertida em museu
Outro aspecto são as exposições relacionadas ao poema “A Longa Marcha”, que contextualizam o papel de Xuanwo naquele evento histórico.
Por fim, as apresentações sobre o “Código para as Regiões Muçulmanas” e a relação entre o exército e a população, mostram que o Exército Vermelho não apenas lutava, mas também valorizava a disciplina e a unidade étnica.
A casa onde Mao Zedong se hospedou em Xuanwo é hoje um importante local para a educação vermelha e o turismo rural, que conecta a história revolucionária, a unidade nacional e o desenvolvimento rural.
Fotografia antiga do imovel onde Mao Zedong pernoitou em Xuanwo
A velha casa nos mostra que a história não ocorre apenas em cidades e grandes campos de batalha, mas também nas pequenas aldeias.
A disciplina, o respeito a grupos religiosos e étnicos, as relações com a população, uma noite em claro, um poema… todas essas coisas aparentemente insignificantes são as forças cruciais que determinaram o avanço e a vitória da Longa Marcha.
A Longa Marcha de ontem e o Brasil de hoje
Agora, quando o Brasil passa por eleições cruciais para decidir seu futuro, o exemplo da Longa Marcha nos lembra que grandes desafios não podem ser superados sem grandes batalhas, e que para vencer uma grande batalha é preciso ter uma estratégia capaz de surpreender o inimigo.
Para chegar a Hadapu, onde as tropas vermelhas se uniram e encontraram um rumo, foi preciso passar por Lazikou, o temido desfiladeiro onde, segundo se dizia, um homem sozinho conseguia derrotar um exército inteiro. A luta foi difícil e as baixas foram muitas, mas a vitória veio. Foi somente após essa batalha que o exército vermelho chinês pôde descansar em Xuanwo.
Xuanwo também nos faz lembrar da importância das pequenas cidades e aldeias, muitas vezes esquecidas. No dia a dia só nos preocupamos com as metrópoles, mas a história, como nos mostra a Longa Marcha, é escrita também no campo, nas aldeias e nas vilas.
E foi justamente nessa pequena aldeia em Gansu que grandes decisões foram tomadas. Enquanto as tropas descansavam, lideranças estabeleciam um rumo e dialogavam com os moradores locais para aprender com eles e, assim, ganhar a confiança e o apoio tão necessários.
Durante a visita a Xuanwo, tive a nítida impressão de que o apoio popular que o exército vermelho chinês conquistou ao longo da Longa Marcha resulta de uma combinação simples: proximidade com o povo e unidade entre pensamento e ação. Os líderes eram acessíveis, dialogavam com o povo e davam-lhe não apenas o esclarecimento teórico, mas também respostas concretas para seus problemas e anseios.
Quase um século separa o Brasil de hoje da Longa Marcha chinesa, mas as lições que podemos tirar dela nunca antes tiveram tanto a ver conosco.
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