A lua de mel da população chilena com o projeto ultraconservador do presidente José Antonio Kast desmoronou em tempo recorde. Apenas sete meses após tomar posse no Palacio de La Moneda, a administração liderada pelo líder da extrema direita local enfrenta uma crise severa de popularidade e legitimidade. Um levantamento recém-divulgado pelo instituto Agenda Criteria revela que expressivos 64% dos cidadãos chilenos reprovam a condução do atual governo, consolidando uma trajetória de queda livre para o mandatário que assumiu o comando do país em 11 de março deste ano sob promessas de prosperidade e ordem.
Os números da pesquisa da Agenda Criteria encontram eco em outros estudos publicados recentemente no país. Levantamentos da consultoria Cadem apontam que a taxa de aprovação do presidente desabou para a faixa entre 27% e 32%, restando um residual de menos de 10% de entrevistados que não souberam avaliar a gestão. O patamar atual representa um contraste dramático em relação ao início do mandato: ao tomar posse, Kast desfrutava do apoio de 57% do eleitorado, enquanto sua rejeição inicial não ultrapassava a casa dos 30%. A rápida deterioração do capital político evidencia um sentimento generalizado de frustração entre os eleitores que optaram pelo discurso radical do candidato.
Alinhado ideologicamente a figuras da extrema direita sul-americana, como o argentino Javier Milei e a família Bolsonaro no Brasil, Kast fundamentou suas propostas de campanha na promessa de choque fiscal, desregulamentação e austeridade. No entanto, a aplicação prática dessas medidas tem coincidido com o agravamento dos principais indicadores sociais e macroeconômicos do Chile.
O cenário econômico sob a gestão de ultradireita tem apresentado sinais claros de retração. Segundo projeções do Banco Central do Chile, a expectativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para o ano de 2026 foi revisada para baixo, situando-se em um intervalo modesto de apenas 0,25% a 0,75%. A paralisação da atividade produtiva reflete-se de maneira direta no mercado de trabalho: dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatísticas (INE) indicam que o desemprego atingiu a taxa de 9,6% no trimestre encerrado em agosto — o patamar mais elevado registrado pelo país nos últimos cinco anos.
Às dificuldades econômicas estruturais somaram-se desastres ambientais de grande escala. O Chile vem sendo castigado por episódios climáticos severos decorrentes da passagem do fenômeno El Niño. Fortes temporais causaram inundações e estragos em 10 das 16 regiões do território chileno, expondo a fragilidade dos mecanismos estaduais de resposta emergencial e prevenção de danos sob o novo governo.
A combinação de paralisia econômica e crise ambiental aprofundou a percepção de inoperância estatal. De acordo com o painel da Agenda Criteria, realizado com 802 entrevistados entre os dias 8 e 9 de outubro, estarrecedores 82% dos chilenos afirmam que a gestão do presidente de ultradireita ficou muito abaixo das suas expectativas iniciais. Apenas 18% consideram que o governo superou o que dele se esperava.
O desgaste político do Palácio de La Moneda tende a se intensificar nas próximas semanas com o início das discussões da Lei de Orçamento para o ano de 2027 no Congresso Nacional. A proposta encaminhada pelo Executivo ratifica o modelo de austeridade defendido por Kast, impondo fortes cortes nas despesas públicas para conter o déficit fiscal. Contudo, a estratégia tem gerado ampla resistência social e episódios de protesto nas ruas das principais cidades do país.
A visão da sociedade sobre o papel do Estado revela contradições que tornam o cenário do governo ainda mais delicado. Embora 58% da população declare que o Estado chileno administra e despende seus recursos de forma ineficiente, e 52% se mostre favorável à diminuição do quadro de servidores públicos, a aceitação popular termina no momento em que o ajuste fiscal atinge o bem-estar da população.
Quando questionados sobre onde o corte de gastos deve incidir, os chilenos rejeitam expressamente o desmonte da rede de proteção pública. Somente 19% dos consultados aprovam a ideia de que a redução orçamentária implique sacrificar ou enxugar programas sociais existentes, uma das marcas do plano de governo de Kast. Mais radical ainda é a oposição ao corte de benefícios diretos: escassos 8% da população concordam com a diminuição ou extinção de bônus e subsídios governamentais destinados às famílias de menor renda.
Com o desemprego em alta, a economia estagnada e um projeto orçamentário focado na supressão de investimentos públicos e direitos sociais, o governo de José Antonio Kast inicia o seu oitavo mês sob forte isolamento popular e o desafio de governar um país majoritariamente insatisfeito com os rumos da sua política ultraconservadora.
Últimas Notícias
O The Brazilian Journal é um site de notícias comprometido em trazer informações relevantes e atuais para nossos leitores.
Nossa equipe de jornalistas e colunistas está sempre a procura das notícias mais importantes para que você possa estar sempre informado sobre o que está acontecendo no mundo.
Aqui, o Brasil está sempre em foco para o mundo!