A Longa Marcha da China: os 90 anos da campanha militar que redefiniu a história do país

A Longa Marcha da China: os 90 anos da campanha militar que redefiniu a história do país

  • 12 de outubro de 2026
  • Mundo
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A Longa Marcha da China, concluída em 1936, é um dos acontecimentos decisivos da história contemporânea chinesa. Há 90 anos, as forças comunistas que atravessaram montanhas, rios, planaltos e regiões de difícil acesso consolidavam uma retirada militar que, apesar das perdas humanas, garantiria a sobrevivência do movimento revolucionário liderado pelo Partido Comunista da China (PCCh).

Iniciada em outubro de 1934, a operação foi uma resposta ao cerco imposto pelo governo nacionalista de Chiang Kai-shek, que buscava destruir as bases revolucionárias comunistas no sul do país. A marcha levou milhares de soldados do Exército Vermelho a percorrer milhares de quilômetros em condições extremas, enfrentando combates, fome, doenças e obstáculos geográficos.

Mais do que uma retirada militar, a Longa Marcha se tornou um marco político e ideológico. O episódio contribuiu para consolidar Mao Zedong como principal liderança do PCCh, reorganizar as forças revolucionárias no norte da China e preservar um núcleo político e militar que teria papel central na derrota dos nacionalistas e na fundação da República Popular da China, em 1949.

Noventa anos depois, a Longa Marcha permanece como um símbolo da capacidade de resistência do movimento comunista chinês e da transformação de uma derrota militar iminente em uma etapa fundamental de sua trajetória revolucionária.

O contexto da Longa Marcha: a China em crise e a disputa pelo poder

No início do século 20, a China enfrentava uma profunda crise política, econômica e social. A fragilidade da dinastia Qing, em 1911, e a subsequente revolução Xinhai encerrou mais de dois milênios de governo imperial, mas não estabeleceu um Estado nacional estável.

O país passou por disputas entre grupos militares regionais, fragmentação territorial, intervenções estrangeiras e conflitos em torno do projeto de modernização nacional.

A situação estava ligada a décadas de pressão imperialista de países como Japão, EUA e Inglaterra, perda de soberania e concessões impostas por potências estrangeiras. A fraqueza das instituições centrais e as desigualdades sociais alimentavam diferentes projetos de transformação, desde o nacionalismo republicano até o movimento comunista.

Fundado em 1921, o Partido Comunista da China passou a organizar trabalhadores urbanos, camponeses e outros setores populares em torno de um projeto revolucionário. Inicialmente, comunistas e nacionalistas do Kuomintang (KMT) mantiveram uma aliança política voltada à unificação nacional. Essa cooperação, entretanto, foi rompida violentamente em 1927, quando Chiang Kai-shek promoveu a repressão aos comunistas, sobretudo em Shanghai.

A ruptura marcou uma mudança estratégica para o PCCh. Diante da perseguição nas cidades, parte do movimento passou a organizar bases revolucionárias no campo, onde a mobilização camponesa e a luta pela terra se tornaram elementos centrais de sua atuação.

Mao Zedong

Jovem Mao Zedong em 1924

Mao Zedong destacou-se nesse processo ao defender que o campesinato poderia desempenhar um papel decisivo na revolução chinesa. A estratégia se diferenciava de modelos revolucionários concentrados prioritariamente na organização do proletariado urbano e ajudou a moldar as características próprias do comunismo chinês.

No início da década de 1930, os comunistas estabeleceram importantes bases revolucionárias em regiões rurais do sul e do centro do país. A principal delas ficava na região de Jiangxi, onde foi organizada a República Soviética Chinesa, proclamada em 1931.

A existência dessa estrutura política e militar representava um desafio direto ao governo nacionalista. Chiang Kai-shek passou, então, a organizar sucessivas campanhas militares para cercar e destruir as forças comunistas.

O cerco nacionalista e a retirada do Exército Vermelho

Entre 1930 e 1934, o governo nacionalista lançou cinco campanhas de cerco contra as bases comunistas. As primeiras não conseguiram eliminar o movimento revolucionário, que utilizava táticas de guerrilha, mobilidade e conhecimento do terreno para enfrentar forças numericamente superiores.

A quinta campanha, iniciada em 1933, adotou uma estratégia mais sistemática de bloqueio territorial. Com apoio de fortificações, postos militares e linhas de contenção, as tropas nacionalistas restringiram progressivamente o acesso das bases comunistas a alimentos, recursos e rotas de deslocamento.

As forças do PCCh enfrentavam dificuldades crescentes. A estratégia militar de confronto mais convencional, adotada naquele período sob influência de dirigentes que defendiam a concentração de forças e a defesa de posições fixas, contribuiu para agravar a situação.

Com o avanço nacionalista, a manutenção da base de Jiangxi tornou-se cada vez mais difícil. Em outubro de 1934, os comunistas decidiram romper o cerco e retirar suas principais forças militares.

A operação não começou como a jornada heroica que posteriormente entraria para a memória nacional chinesa. Tratava-se de uma retirada de emergência, destinada a evitar a destruição do Exército Vermelho e preservar a continuidade do movimento revolucionário.

O contingente que deixou Jiangxi incluía dezenas de milhares de soldados, além de quadros políticos e integrantes da estrutura administrativa comunista. A marcha inicial foi marcada por perdas severas, dificuldades logísticas e ataques das tropas nacionalistas.

Atravessar as linhas inimigas exigiu abandonar equipamentos, reorganizar unidades e buscar rotas capazes de reduzir a exposição aos ataques. A sobrevivência do movimento dependia de uma combinação de mobilidade militar, disciplina, adaptação estratégica e apoio obtido ao longo do percurso.

A Conferência de Zunyi e a ascensão de Mao Tsé-tung

Um dos episódios mais importantes da Longa Marcha ocorreu em janeiro de 1935, quando dirigentes do PCCh se reuniram na cidade de Zunyi, na província de Guizhou.

A Conferência de Zunyi discutiu os erros militares que haviam contribuído para as derrotas anteriores e a condução da retirada. O encontro marcou uma inflexão na direção do partido e fortaleceu a posição de Mao Zedong nas decisões estratégicas.

Mao defendia uma abordagem mais flexível, baseada na mobilidade, na concentração de forças em momentos favoráveis e na exploração das vulnerabilidades do adversário. A experiência acumulada nas bases rurais e nos confrontos anteriores reforçou sua influência entre os dirigentes revolucionários.

A consolidação de sua liderança ocorreu ao longo de um processo político mais amplo, com disputas internas e mudanças na estrutura de comando. Ainda assim, Zunyi é tradicionalmente considerada um ponto de virada na trajetória do partido.

A partir daquele momento, a direção comunista passou a ter maior capacidade de reorganizar a retirada e adaptar suas operações às condições encontradas no caminho.

A travessia de rios, montanhas e pântanos

A sobrevivência do Exército Vermelho dependia da capacidade de escapar às tropas nacionalistas e encontrar regiões onde pudesse reorganizar suas forças. Para isso, os comunistas atravessaram algumas das áreas mais difíceis do território chinês.

Entre os episódios mais conhecidos está a travessia do rio Chishui, em 1935. Ao cruzar o rio repetidas vezes e mudar de direção, as forças comandadas por Mao confundiram seus perseguidores e evitaram ficar encurraladas por tropas numericamente superiores.

A estratégia demonstrou a importância da flexibilidade tática. Em vez de insistir em confrontos desfavoráveis, o Exército Vermelho procurava explorar brechas nas linhas inimigas, deslocar-se rapidamente e escolher as condições dos combates.

Outro momento marcante foi a travessia da ponte de Luding, sobre o rio Dadu, em maio de 1935. A passagem era fundamental para o avanço das tropas, mas estava defendida por forças adversárias. A batalha tornou-se um dos episódios mais celebrados da Longa Marcha na memória oficial chinesa.

Leia também: A arte de criar o próprio caminho: lições de Lazikou, de Rafael Henrique Zerbetto, sobre um dos momentos decisivos da Longa Marcha

A jornada também exigiu a travessia de montanhas cobertas de neve e de extensas áreas pantanosas. Os soldados enfrentaram frio intenso, escassez de alimentos, doenças e exaustão. Em determinadas regiões, a dificuldade de encontrar comida e abrigo representava uma ameaça tão grave quanto os combates.

O percurso não foi realizado por uma única coluna seguindo uma rota uniforme. Diferentes formações do Exército Vermelho partiram de bases distintas, percorreram caminhos próprios e se reuniram em momentos diferentes. A marcha das forças comunistas, portanto, foi um processo mais amplo, que se estendeu de 1934 a 1936.

O encontro no norte e o fim da Longa Marcha

Em outubro de 1935, a principal força que havia deixado Jiangxi chegou à região de Shaanxi, no norte da China. A chegada a Wuqi, em 19 de outubro, marcou o encerramento da etapa mais conhecida da retirada liderada por Mao Zedong.

O Exército Vermelho havia perdido grande parte de seus integrantes ao longo do caminho. Embora as estimativas variem conforme a formação considerada e os critérios utilizados, as perdas foram enormes. Sem números oficiais, é difícil estabelecer um padrão, mas estimativas ocidentais falam em 8 mil sobreviventes dos mais de 86 mil combatentes que iniciaram a retirada.

A sobrevivência de um núcleo de combatentes e dirigentes, entretanto, permitiu ao PCCh manter sua organização política e militar. Em vez de ser eliminado, o partido passou a reconstruir suas bases no norte do país.

A Longa Marcha só foi concluída em sentido mais amplo em outubro de 1936, quando todas as formações do Exército Vermelho se reuniram na região de Gansu. O encontro entre os exércitos consolidou a reorganização militar comunista e encerrou um período de deslocamentos iniciado dois anos antes.

A chegada ao norte não significou uma vitória militar definitiva sobre Chiang Kai-shek. O PCCh ainda enfrentaria anos de guerra e reorganização.

A diferença é que, depois da Longa Marcha, o movimento continuava existindo e dispunha de uma nova base territorial a partir da qual poderia ampliar sua influência.

A invasão japonesa e a mudança do cenário político

A história da Longa Marcha também está relacionada à ameaça imperialista que pesava sobre a China. Enquanto nacionalistas e comunistas disputavam o poder, o Japão ampliava sua agressão contra o território chinês.

Em 1931, tropas japonesas ocuparam a Manchúria, no nordeste do país, estabelecendo o Estado fantoche de Manchukuo.

Em julho de 1937, a guerra entre China e Japão se expandiu em grande escala, após o incidente da Ponte Marco Polo, nos arredores de Pequim.

A agressão japonesa alterou profundamente o equilíbrio político chinês. A disputa entre o Kuomintang e o PCCh passou a coexistir com a necessidade de enfrentar um invasor estrangeiro que ameaçava a soberania nacional.

Em dezembro de 1936, o Incidente de Xi’an, no qual Chiang Kai-shek foi detido por militares que defendiam uma mudança de prioridade diante da ameaça japonesa, contribuiu para pressionar o governo nacionalista a rever sua política de confronto aos comunistas.

O episódio foi decisivo para o processo que levou à formação de uma segunda frente unida entre nacionalistas e comunistas contra o Japão.

A cooperação, contudo, não eliminou a desconfiança entre as duas forças. O PCCh continuou a desenvolver suas próprias estruturas militares e políticas, ampliando sua presença em áreas rurais e buscando apoio entre os camponeses.

Nesse contexto, a Longa Marcha adquiriu um significado estratégico que ultrapassava a sobrevivência imediata.

A preservação do Exército Vermelho permitiu aos comunistas participar da resistência à ocupação japonesa e fortalecer sua organização durante a guerra.

O conflito contra o Japão terminou em 1945, com a derrota japonesa na Segunda Guerra Mundial. A disputa pelo controle do Estado chinês, entretanto, foi retomada em larga escala.

Após novos anos de guerra civil, as forças comunistas derrotaram os nacionalistas no continente, e Mao Zedong proclamou a República Popular da China em 1º de outubro de 1949.

A Longa Marcha não explica sozinha a vitória de 1949, que também dependeu da mobilização camponesa, da organização partidária, das decisões militares e das condições políticas criadas pela guerra contra o Japão.

Ainda assim, foi um dos acontecimentos que permitiram ao PCCh sobreviver à fase mais perigosa de sua trajetória e chegar à etapa seguinte da revolução.

O significado político da Longa Marcha para o PCCh

A Longa Marcha ocupa um lugar central na interpretação histórica construída pelo Partido Comunista da China.

Ela é apresentada como uma demonstração de resistência, disciplina, compromisso revolucionário e capacidade de adaptação diante de adversidades extremas.

Esse legado não se limita à dimensão militar. A experiência contribuiu para estabelecer uma identidade política comum entre dirigentes e combatentes que atravessaram o país, enfrentaram perdas e reconstruíram suas forças em condições precárias.

A consolidação de Mao Zedong como liderança do movimento foi outro resultado fundamental. A Conferência de Zunyi e os acontecimentos posteriores fortaleceram sua influência, embora a concentração definitiva de poder tenha ocorrido ao longo dos anos seguintes.

A marcha também reforçou a importância da relação entre o partido e a população rural. Em diferentes regiões, os comunistas procuraram estabelecer contatos com comunidades locais, obter suprimentos e conquistar apoio político. A capacidade de mobilizar camponeses e organizar bases territoriais seria um componente decisivo da estratégia revolucionária nas décadas seguintes.

A própria distância percorrida tornou-se parte dessa memória. A cifra tradicional de 25 mil li, geralmente convertida em cerca de 12,5 mil quilômetros, refere-se à rota atribuída à principal força do Exército Vermelho e não deve ser aplicada indistintamente a todos os participantes. As diferentes colunas percorreram trajetos distintos, e as estimativas variam conforme a unidade militar e o método de cálculo.

90 anos depois, a Longa Marcha permanece na história chinesa

Ao completar 90 anos em 2026, a Longa Marcha continua sendo uma referência para compreender a trajetória do PCCh e a formação da China contemporânea.

Poster em homenagem aos mártires da Longa Marcha em Jiangxi

Poster em homenagem aos mártires da Longa Marcha em Jiangxi

Seu significado está ligado à capacidade de uma organização revolucionária de sobreviver a uma crise militar, rever suas estratégias e preservar uma estrutura capaz de disputar o futuro do país.

A Longa Marcha não foi uma vitória imediata nem uma jornada sem erros. Foi uma retirada estratégica que envolveu perdas severas, conflitos internos e decisões que mudaram o curso do movimento comunista. Seu resultado mais importante foi garantir que o PCCh continuasse existindo quando sua derrota parecia próxima.

A chegada ao norte da China, em 1935, e a reunião das principais forças revolucionárias em 1936 criaram condições para uma nova etapa da luta política e militar.

A partir dali, o partido ampliaria sua presença no território chinês, participaria da resistência contra a invasão japonesa e, depois de uma nova guerra civil, fundaria a República Popular da China.

A história da Longa Marcha revela, assim, uma contradição fundamental: aquilo que começou como uma retirada diante de uma ofensiva inimiga acabou se tornando um dos episódios decisivos para a sobrevivência e a ascensão do movimento revolucionário chinês.

Noventa anos depois, sua importância permanece ligada não apenas à distância percorrida, mas às transformações políticas que ajudou a tornar possíveis.

Referências:

A Long March battle to remember

THE LONG MARCH

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Redação The Brazilian Journal
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