A Longa Marcha da China, concluída em 1936, é um dos acontecimentos decisivos da história contemporânea chinesa. Há 90 anos, as forças comunistas que atravessaram montanhas, rios, planaltos e regiões de difícil acesso consolidavam uma retirada militar que, apesar das perdas humanas, garantiria a sobrevivência do movimento revolucionário liderado pelo Partido Comunista da China (PCCh).
Iniciada em outubro de 1934, a operação foi uma resposta ao cerco imposto pelo governo nacionalista de Chiang Kai-shek, que buscava destruir as bases revolucionárias comunistas no sul do país. A marcha levou milhares de soldados do Exército Vermelho a percorrer milhares de quilômetros em condições extremas, enfrentando combates, fome, doenças e obstáculos geográficos.
Mais do que uma retirada militar, a Longa Marcha se tornou um marco político e ideológico. O episódio contribuiu para consolidar Mao Zedong como principal liderança do PCCh, reorganizar as forças revolucionárias no norte da China e preservar um núcleo político e militar que teria papel central na derrota dos nacionalistas e na fundação da República Popular da China, em 1949.
Noventa anos depois, a Longa Marcha permanece como um símbolo da capacidade de resistência do movimento comunista chinês e da transformação de uma derrota militar iminente em uma etapa fundamental de sua trajetória revolucionária.
No início do século 20, a China enfrentava uma profunda crise política, econômica e social. A fragilidade da dinastia Qing, em 1911, e a subsequente revolução Xinhai encerrou mais de dois milênios de governo imperial, mas não estabeleceu um Estado nacional estável.
O país passou por disputas entre grupos militares regionais, fragmentação territorial, intervenções estrangeiras e conflitos em torno do projeto de modernização nacional.
A situação estava ligada a décadas de pressão imperialista de países como Japão, EUA e Inglaterra, perda de soberania e concessões impostas por potências estrangeiras. A fraqueza das instituições centrais e as desigualdades sociais alimentavam diferentes projetos de transformação, desde o nacionalismo republicano até o movimento comunista.
Fundado em 1921, o Partido Comunista da China passou a organizar trabalhadores urbanos, camponeses e outros setores populares em torno de um projeto revolucionário. Inicialmente, comunistas e nacionalistas do Kuomintang (KMT) mantiveram uma aliança política voltada à unificação nacional. Essa cooperação, entretanto, foi rompida violentamente em 1927, quando Chiang Kai-shek promoveu a repressão aos comunistas, sobretudo em Shanghai.
A ruptura marcou uma mudança estratégica para o PCCh. Diante da perseguição nas cidades, parte do movimento passou a organizar bases revolucionárias no campo, onde a mobilização camponesa e a luta pela terra se tornaram elementos centrais de sua atuação.
Jovem Mao Zedong em 1924
Mao Zedong destacou-se nesse processo ao defender que o campesinato poderia desempenhar um papel decisivo na revolução chinesa. A estratégia se diferenciava de modelos revolucionários concentrados prioritariamente na organização do proletariado urbano e ajudou a moldar as características próprias do comunismo chinês.
No início da década de 1930, os comunistas estabeleceram importantes bases revolucionárias em regiões rurais do sul e do centro do país. A principal delas ficava na região de Jiangxi, onde foi organizada a República Soviética Chinesa, proclamada em 1931.
A existência dessa estrutura política e militar representava um desafio direto ao governo nacionalista. Chiang Kai-shek passou, então, a organizar sucessivas campanhas militares para cercar e destruir as forças comunistas.
Entre 1930 e 1934, o governo nacionalista lançou cinco campanhas de cerco contra as bases comunistas. As primeiras não conseguiram eliminar o movimento revolucionário, que utilizava táticas de guerrilha, mobilidade e conhecimento do terreno para enfrentar forças numericamente superiores.
A quinta campanha, iniciada em 1933, adotou uma estratégia mais sistemática de bloqueio territorial. Com apoio de fortificações, postos militares e linhas de contenção, as tropas nacionalistas restringiram progressivamente o acesso das bases comunistas a alimentos, recursos e rotas de deslocamento.
As forças do PCCh enfrentavam dificuldades crescentes. A estratégia militar de confronto mais convencional, adotada naquele período sob influência de dirigentes que defendiam a concentração de forças e a defesa de posições fixas, contribuiu para agravar a situação.
Com o avanço nacionalista, a manutenção da base de Jiangxi tornou-se cada vez mais difícil. Em outubro de 1934, os comunistas decidiram romper o cerco e retirar suas principais forças militares.
A operação não começou como a jornada heroica que posteriormente entraria para a memória nacional chinesa. Tratava-se de uma retirada de emergência, destinada a evitar a destruição do Exército Vermelho e preservar a continuidade do movimento revolucionário.
O contingente que deixou Jiangxi incluía dezenas de milhares de soldados, além de quadros políticos e integrantes da estrutura administrativa comunista. A marcha inicial foi marcada por perdas severas, dificuldades logísticas e ataques das tropas nacionalistas.
Atravessar as linhas inimigas exigiu abandonar equipamentos, reorganizar unidades e buscar rotas capazes de reduzir a exposição aos ataques. A sobrevivência do movimento dependia de uma combinação de mobilidade militar, disciplina, adaptação estratégica e apoio obtido ao longo do percurso.
Um dos episódios mais importantes da Longa Marcha ocorreu em janeiro de 1935, quando dirigentes do PCCh se reuniram na cidade de Zunyi, na província de Guizhou.
A Conferência de Zunyi discutiu os erros militares que haviam contribuído para as derrotas anteriores e a condução da retirada. O encontro marcou uma inflexão na direção do partido e fortaleceu a posição de Mao Zedong nas decisões estratégicas.
Mao defendia uma abordagem mais flexível, baseada na mobilidade, na concentração de forças em momentos favoráveis e na exploração das vulnerabilidades do adversário. A experiência acumulada nas bases rurais e nos confrontos anteriores reforçou sua influência entre os dirigentes revolucionários.
A consolidação de sua liderança ocorreu ao longo de um processo político mais amplo, com disputas internas e mudanças na estrutura de comando. Ainda assim, Zunyi é tradicionalmente considerada um ponto de virada na trajetória do partido.
A partir daquele momento, a direção comunista passou a ter maior capacidade de reorganizar a retirada e adaptar suas operações às condições encontradas no caminho.
A sobrevivência do Exército Vermelho dependia da capacidade de escapar às tropas nacionalistas e encontrar regiões onde pudesse reorganizar suas forças. Para isso, os comunistas atravessaram algumas das áreas mais difíceis do território chinês.
Entre os episódios mais conhecidos está a travessia do rio Chishui, em 1935. Ao cruzar o rio repetidas vezes e mudar de direção, as forças comandadas por Mao confundiram seus perseguidores e evitaram ficar encurraladas por tropas numericamente superiores.
A estratégia demonstrou a importância da flexibilidade tática. Em vez de insistir em confrontos desfavoráveis, o Exército Vermelho procurava explorar brechas nas linhas inimigas, deslocar-se rapidamente e escolher as condições dos combates.
Outro momento marcante foi a travessia da ponte de Luding, sobre o rio Dadu, em maio de 1935. A passagem era fundamental para o avanço das tropas, mas estava defendida por forças adversárias. A batalha tornou-se um dos episódios mais celebrados da Longa Marcha na memória oficial chinesa.
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A jornada também exigiu a travessia de montanhas cobertas de neve e de extensas áreas pantanosas. Os soldados enfrentaram frio intenso, escassez de alimentos, doenças e exaustão. Em determinadas regiões, a dificuldade de encontrar comida e abrigo representava uma ameaça tão grave quanto os combates.
O percurso não foi realizado por uma única coluna seguindo uma rota uniforme. Diferentes formações do Exército Vermelho partiram de bases distintas, percorreram caminhos próprios e se reuniram em momentos diferentes. A marcha das forças comunistas, portanto, foi um processo mais amplo, que se estendeu de 1934 a 1936.
Em outubro de 1935, a principal força que havia deixado Jiangxi chegou à região de Shaanxi, no norte da China. A chegada a Wuqi, em 19 de outubro, marcou o encerramento da etapa mais conhecida da retirada liderada por Mao Zedong.
O Exército Vermelho havia perdido grande parte de seus integrantes ao longo do caminho. Embora as estimativas variem conforme a formação considerada e os critérios utilizados, as perdas foram enormes. Sem números oficiais, é difícil estabelecer um padrão, mas estimativas ocidentais falam em 8 mil sobreviventes dos mais de 86 mil combatentes que iniciaram a retirada.
A sobrevivência de um núcleo de combatentes e dirigentes, entretanto, permitiu ao PCCh manter sua organização política e militar. Em vez de ser eliminado, o partido passou a reconstruir suas bases no norte do país.
A Longa Marcha só foi concluída em sentido mais amplo em outubro de 1936, quando todas as formações do Exército Vermelho se reuniram na região de Gansu. O encontro entre os exércitos consolidou a reorganização militar comunista e encerrou um período de deslocamentos iniciado dois anos antes.
A chegada ao norte não significou uma vitória militar definitiva sobre Chiang Kai-shek. O PCCh ainda enfrentaria anos de guerra e reorganização.
A diferença é que, depois da Longa Marcha, o movimento continuava existindo e dispunha de uma nova base territorial a partir da qual poderia ampliar sua influência.
A história da Longa Marcha também está relacionada à ameaça imperialista que pesava sobre a China. Enquanto nacionalistas e comunistas disputavam o poder, o Japão ampliava sua agressão contra o território chinês.
Em 1931, tropas japonesas ocuparam a Manchúria, no nordeste do país, estabelecendo o Estado fantoche de Manchukuo.
Em julho de 1937, a guerra entre China e Japão se expandiu em grande escala, após o incidente da Ponte Marco Polo, nos arredores de Pequim.
A agressão japonesa alterou profundamente o equilíbrio político chinês. A disputa entre o Kuomintang e o PCCh passou a coexistir com a necessidade de enfrentar um invasor estrangeiro que ameaçava a soberania nacional.
Em dezembro de 1936, o Incidente de Xi’an, no qual Chiang Kai-shek foi detido por militares que defendiam uma mudança de prioridade diante da ameaça japonesa, contribuiu para pressionar o governo nacionalista a rever sua política de confronto aos comunistas.
O episódio foi decisivo para o processo que levou à formação de uma segunda frente unida entre nacionalistas e comunistas contra o Japão.
A cooperação, contudo, não eliminou a desconfiança entre as duas forças. O PCCh continuou a desenvolver suas próprias estruturas militares e políticas, ampliando sua presença em áreas rurais e buscando apoio entre os camponeses.
Nesse contexto, a Longa Marcha adquiriu um significado estratégico que ultrapassava a sobrevivência imediata.
A preservação do Exército Vermelho permitiu aos comunistas participar da resistência à ocupação japonesa e fortalecer sua organização durante a guerra.
O conflito contra o Japão terminou em 1945, com a derrota japonesa na Segunda Guerra Mundial. A disputa pelo controle do Estado chinês, entretanto, foi retomada em larga escala.
Após novos anos de guerra civil, as forças comunistas derrotaram os nacionalistas no continente, e Mao Zedong proclamou a República Popular da China em 1º de outubro de 1949.
A Longa Marcha não explica sozinha a vitória de 1949, que também dependeu da mobilização camponesa, da organização partidária, das decisões militares e das condições políticas criadas pela guerra contra o Japão.
Ainda assim, foi um dos acontecimentos que permitiram ao PCCh sobreviver à fase mais perigosa de sua trajetória e chegar à etapa seguinte da revolução.
A Longa Marcha ocupa um lugar central na interpretação histórica construída pelo Partido Comunista da China.
Ela é apresentada como uma demonstração de resistência, disciplina, compromisso revolucionário e capacidade de adaptação diante de adversidades extremas.
Esse legado não se limita à dimensão militar. A experiência contribuiu para estabelecer uma identidade política comum entre dirigentes e combatentes que atravessaram o país, enfrentaram perdas e reconstruíram suas forças em condições precárias.
A consolidação de Mao Zedong como liderança do movimento foi outro resultado fundamental. A Conferência de Zunyi e os acontecimentos posteriores fortaleceram sua influência, embora a concentração definitiva de poder tenha ocorrido ao longo dos anos seguintes.
A marcha também reforçou a importância da relação entre o partido e a população rural. Em diferentes regiões, os comunistas procuraram estabelecer contatos com comunidades locais, obter suprimentos e conquistar apoio político. A capacidade de mobilizar camponeses e organizar bases territoriais seria um componente decisivo da estratégia revolucionária nas décadas seguintes.
A própria distância percorrida tornou-se parte dessa memória. A cifra tradicional de 25 mil li, geralmente convertida em cerca de 12,5 mil quilômetros, refere-se à rota atribuída à principal força do Exército Vermelho e não deve ser aplicada indistintamente a todos os participantes. As diferentes colunas percorreram trajetos distintos, e as estimativas variam conforme a unidade militar e o método de cálculo.
Ao completar 90 anos em 2026, a Longa Marcha continua sendo uma referência para compreender a trajetória do PCCh e a formação da China contemporânea.
Poster em homenagem aos mártires da Longa Marcha em Jiangxi
Seu significado está ligado à capacidade de uma organização revolucionária de sobreviver a uma crise militar, rever suas estratégias e preservar uma estrutura capaz de disputar o futuro do país.
A Longa Marcha não foi uma vitória imediata nem uma jornada sem erros. Foi uma retirada estratégica que envolveu perdas severas, conflitos internos e decisões que mudaram o curso do movimento comunista. Seu resultado mais importante foi garantir que o PCCh continuasse existindo quando sua derrota parecia próxima.
A chegada ao norte da China, em 1935, e a reunião das principais forças revolucionárias em 1936 criaram condições para uma nova etapa da luta política e militar.
A partir dali, o partido ampliaria sua presença no território chinês, participaria da resistência contra a invasão japonesa e, depois de uma nova guerra civil, fundaria a República Popular da China.
A história da Longa Marcha revela, assim, uma contradição fundamental: aquilo que começou como uma retirada diante de uma ofensiva inimiga acabou se tornando um dos episódios decisivos para a sobrevivência e a ascensão do movimento revolucionário chinês.
Noventa anos depois, sua importância permanece ligada não apenas à distância percorrida, mas às transformações políticas que ajudou a tornar possíveis.
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