Jovens talentos internacionais descobrem o Grande Canal da China

Jovens talentos internacionais descobrem o Grande Canal da China

  • 29 de setembro de 2026
  • Mundo
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Adicionado à Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO em 2014 como a maior e mais extensa obra de engenharia civil anterior à Revolução Industrial e a mais antiga e longa via navegável artificial do mundo, o Grande Canal da China é um exemplo notável da sabedoria, determinação e criatividade do povo chinês, com uma história de mais de 2.500 anos.

Durante o mês de setembro deste ano, o programa Diálogo de Jovens Lideranças Globais (GYLD, da sigla em inglês) levou jovens talentos de diferentes países para conhecer a história, o legado e o significado contemporâneo do Grande Canal, promovendo o intercâmbio cultural e o aprendizado mútuo.

A visita foi dividida em duas partes: de 8 a 11 de setembro, os jovens visitaram a parte norte do Grande Canal, começando pela capital, Beijing, seguindo para Tianjin, e de lá para Liaocheng e Linqing, na província de Shandong.

A segunda parte da visita, entre os dias 19 e 24 de setembro, levou a delegação para Yangzhou, na província de Jiangsu, e depois para Shaoxing e Ningbo, na província de Zhejiang.

O canal que promoveu união e prosperidade

Com quase 3.200 km de extensão, o Grande Canal é o mais longo e antigo canal artificial do mundo, interligando cinco grandes rios navegáveis chineses, do norte para o sul, Hai, Amarelo, Huai, Yangtzé e Qiantang.

A construção do Grande Canal começou em 486 a.C., durante o período das Primaveras e Outonos, quando o rei Fuchai do Estado de Wu ordenou a escavação do canal Hangou, ligando o rio Yangtzé ao rio Huai, para facilitar o transporte de tropas e mantimentos para uma campanha militar no norte.

Durante os séculos seguintes, vários canais regionais foram abertos, mas estavam fragmentados e desconectados, até que, em 605 d.C., o Imperador Yang, da Dinastia Sui, ordenou a ligação de todos os canais existentes num sistema unificado.

Já na dinastia Yuan, sob as ordens do imperador Kublai Khan, o traçado foi alterado e encurtado entre 1281 e 1283, para ligar diretamente a nova capital, Dadu, atual Beijing, a Hangzhou, formando a rota principal que hoje conhecemos como o Grande Canal Beijing-Hangzhou, com 1.794 km de extensão.

Ao longo de sua história milenar, o Grande Canal teve um papel essencial na consolidação da unidade política e estabilização econômica da China, corrigindo a disparidade de recursos entre norte e sul, promovendo o comércio e o intercâmbio cultural entre diferentes regiões do país, facilitando a logística militar e contribuindo para a segurança do abastecimento de grãos.

Mesmo nos dias atuais, o Grande Canal continua desempenhando papéis de grande importância para o povo chinês, servindo não apenas para navegação, como também para irrigação, abastecimento de água e controle de enchentes, além de ter se tornado, mais recentemente, um dos motores do desenvolvimento do turismo no país.

O Grande Canal no Norte da China

A cerimônia de abertura da turnê pelo Grande Canal aconteceu em um barco navegando sobre o Grande Canal, no distrito de Tongzhou, em Beijing, no dia 8 de setembro.

Na cerimônia esteve presente o fotógrafo chinês Liu Shizhao, de 78 anos, que ao longo de sua carreira se dedicou a fotografar e documentar o Grande Canal. Registros históricos feitos pelo fotógrafo decoravam a mesa no centro do barco.

“Vocês devem observar não apenas as belas paisagens ao longo do canal, mas também observar como vive a população ao longo de suas margens”, recomendou o fotógrafo aos jovens, ao falar sobre seu trabalho e compartilhar suas memórias.

No século passado, com o surgimento de ferrovias e rodovias, muitos trechos do Grande Canal tornaram-se subutilizados, sofrendo com o abandono e a poluição. O trabalho de Liu, ao resgatar a memória do canal, teve um papel fundamental para sua recuperação e preservação.

A viagem de barco permitiu aos jovens conhecerem o Parque Florestal do Grande Canal, observando as áreas de lazer ao redor do canal e seu papel essencial no desenvolvimento do distrito de Tongzhou. De volta à terra firme, eles visitaram três templos e o pagode Randeng, construídos às margens do Grande Canal.

No dia seguinte, a delegação seguiu para a vizinha Tianjin, onde conheceram a Cidade Antiga de Yangliuqing. Além da visita a museus e ao histórico complexo arquitetônico, os jovens também assistiram apresentações acrobáticas e experimentaram a Pintura de Ano Novo de Yangliuqing, uma das artes tradicionais mais representativas de Tianjin, que combina impressão com pintura.

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Jovens talentos estrangeiros participam de apresentação acrobática na cidade antiga de Yangliuqing, em Tianjin

Em Liaocheng, a delegação visitou a Torre Guangyue e a Associação de Conterrâneos de Shanxi-Shaanxi, um local que guarda vestígios do comércio ao longo do Grande Canal, famoso também pelas belas esculturas em pedra e madeira.

Já em Linqing, as principais visitas foram ao Jardim Wanyuan e ao Posto Aduaneiro do Grande Canal em Linqing, que guarda preciosas evidências históricas e arqueológicas das trocas comerciais ao longo do canal.

Os jovens talentos internacionais ficaram encantados com o gato leão de Linqing, uma raça de gatos característica da cidade, que surgiu há mais de 500 anos graças ao cruzamento de gatos locais com gatos persas trazidos pelo comércio ao longo do Grande Canal. Os animais, que costumam ter um olho de cada cor, tornaram-se um símbolo das trocas culturais ao longo do Grande Canal.

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O Gato Leão de Linqing é uma raça que surgiu em consequência do comércio ao longo do Grande Canal

Antes da despedida, os jovens, que no início da viagem eram completos estranhos e ao final dela já interagiam como se fossem velhos amigos, realizaram um salão para discutir o que aprenderam durante a visita.

O Grande Canal no Leste da China

A visita ao Grande Canal no leste da China teve início em Yangzhou, cidade localizada na confluência do Grande Canal com o rio Yangtzé, sendo também o lugar onde a escavação do antigo canal Hangou teve início, sendo, portanto, o “marco zero” do Grande Canal e também o seu ponto mais estratégico.

Lá os jovens visitaram o Museu do Grande Canal da China, que combina a exposição de tesouros artísticos e arqueológicos com experiências imersivas para contar a história e o legado do canal.

A delegação também visitou o Parque Ecológico do Grande Canal e a Eclusa de Shaobo, cuja história remonta à dinastia Ming, mas hoje opera com tecnologias modernas. No dia seguinte, os talentos estrangeiros experimentaram roupas tradicionais chinesas dos tempos áureos do Grande Canal e visitaram o famoso lago Shouxihu, cartão postal da cidade.

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A eclusa de Shaobo, em Yangzhou, fica em um local estratégico do Grande Canal

Em Shaoxing, a delegação conheceu o trabalho de revitalização dos parques em torno dos canais, visitou o Museu do Canal de Zhejiang Oriental, passeou ao redor dos antigos canais do centro histórico da cidade, e aprendeu sobre a tradição local de produção do huangjiu, uma bebida alcoólica resultante da fermentação do arroz.

A visita a Shaoxing terminou com um cruzeiro noturno imersivo sob o tema “Sonhando com Shaoxing”. Em um barco semelhante ao usado em Beijing, os jovens conheceram histórias populares locais, contadas por meio de projeções multimídia e apresentações cênicas às margens do Grande Canal.

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Estudantes se reúnem às margens de um canal no centro histórico de Shaoxing para praticar pintura a óleo

Em Ningbo, cidade onde o Grande Canal encontra a Rota da Seda Marítima, os jovens talentos internacionais visitaram a Associação de Conterrâneos Qing’an, onde se reuniram com especialistas locais para aprender sobre a história e a importância do Grande Canal e as atuais políticas relacionadas à sua conservação.

A delegação também passeou pelo bund de Ningbo, uma área histórica às margens dos grandes rios que cruzam a cidade. No local há edifícios históricos, entre eles a igreja católica de Jiangbei, fundada por missionários franceses, e o antigo prédio da Siemens, construído com tijolos importados da Alemanha.

O evento foi encerrado com um salão, no qual cada jovem apresentou uma fotografia tirada ao longo da viagem, usando-a de inspiração para compartilhar o que vivenciou e aprendeu durante as visitas a diferentes trechos do Grande Canal.

Impressões sobre o Grande Canal

“É cada vez mais forte o sentimento de que o Grande Canal conecta não apenas cidades, mas também pessoas, culturas, comércio e ideias. O que mais me impressionou foi entender a China além dos livros”, resumiu o nigeriano Uzodinma Chinenye Gerlof, pesquisador em pós-doutoramento na Academia Cinturão e Rota da Universidade de Línguas e Culturas de Beijing.

Como um jovem sinólogo dedicado ao estudo das relações da China com outros países, Uzodinma vê a experiência da China como complemento necessário ao estudo acadêmico. “Nós visitamos esses lugares, observamos a arquitetura, ouvimos histórias e trocamos ideias com diferentes pessoas”, enumera o pesquisador.

A paquistanesa Jazbia Shirin, pesquisadora em pós-doutoramento na Escola de Meio Ambiente e Energia da Universidade de Pequim, na cidade de Shenzhen, tem um relato parecido: “Antes, eu conhecia o Grande Canal como o grande projeto de engenharia da antiguidade descrito nos livros. Durante a visita, pude sentir que não são apenas ruínas do passado, mas uma parte viva, bela e ativa das cidades chinesas modernas”.

Jazbia afirma que, ao contemplar sítios históricos e cenas urbanas, foi capaz de imaginar gerações de pessoas que ali viveram e viajaram por aquelas águas. “Canais não são apenas para transportes, eles carregam cultura, história, línguas e histórias.

Ela também destaca que ao ir de uma cidade à outra, é possível notar como influências culturais trazidas pelo Grande Canal se misturaram, dando uma identidade única a cada lugar: “Ao longo do Grande Canal em Liaocheng, os jardins misturam a rigidez da arquitetura do norte com um toque suave do sul”.

Doutoranda em finanças pela Universidade Normal de Beijing, Romana Akhter, de Bangladesh, destaca as novas amizades que fez ao longo da viagem e a troca de conhecimentos que isso proporcionou: “Sinto que aprendi muito com cada um e obtive muita inspiração para o futuro que tenho à frente. O Canal realmente conecta pessoas”.

Lições para o Mundo

Sob o ponto de vista histórico, o Grande Canal foi fundamental para a integração nacional da China, facilitando trocas não apenas comerciais, mas também culturais, que mesmo hoje podem ser identificadas no modo de vida único que se desenvolveu ao longo de suas margens.

Para países como o Brasil, que ainda não conseguiram superar todas as suas diferenças internas, o Grande Canal pode ser uma inspiração para o enfrentamento desse desafio enorme, mas essencial para a consolidação de um espírito nacional.

Além disso, o Grande Canal é uma experiência histórica que nos mostra os valores corretos a serem buscados pelo mundo globalizado: ele nos mostra que o progresso resulta das trocas e não do isolamento.

É com esse entendimento que o presidente chinês Xi Jinping propôs ao mundo a construção conjunta de uma Comunidade com Futuro Compartilhado para a Humanidade.

Enquanto alguns países insistem em impor-se como potência hegemônica, sem respeitar a soberania alheia e dispondo-se até mesmo a usar a força militar para subjugar outras nações, a China aposta no multilateralismo pautado pelo respeito mútuo, pelo aprofundamento de intercâmbios e pela cooperação visando mútuo benefício.

Também é inspirador notar que o atual gerenciamento do canal é um exemplo do compromisso da China com o desenvolvimento verde e a preservação do patrimônio histórico aliado ao progresso.

Em Yangzhou, por exemplo, o Grande Canal sofreu com a poluição causada pela indústria química a partir dos anos 1950. As indústrias foram realocadas e hoje em dia o tratamento de esgoto industrial é obrigatório, de modo que os rios e canais da China têm apresentado sucessivas melhorias em qualidade da água.

No entorno do Grande Canal, belos parques e reservas têm sido construídos e melhorados, oferecendo lazer à população e contribuindo para preservar os recursos naturais e a biodiversidade, com base no antigo conceito chinês de busca pela harmonia entre o ser humano e a natureza.

A preservação do patrimônio histórico e cultural do Grande Canal não se dá privando a população do desenvolvimento econômico. Ao contrário, esse patrimônio é convertido em motor de desenvolvimento para melhorar as vidas das pessoas e reforçar o vínculo da comunidade local com a sua preservação.

Em um mundo cada vez mais marcado pela efemeridade da indústria cultural e do mundo digital, onde nada é feito para durar, mas apenas para ser descartado pouco tempo após a compra, o Grande Canal, com sua história milenar, nos lembra que a construção de um legado duradouro é possível e desejável. O futuro compartilhado que buscamos deve ser construído com a mesma determinação e sabedoria que ergueram esse canal milenar.

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Redação The Brazilian Journal
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